Dor na panturrilha (a “batata da perna”) que aparece sempre depois de caminhar uma certa distância e melhora em poucos minutos quando a pessoa para pode ser claudicação intermitente, o sintoma mais típico da doença arterial periférica, isto é, do estreitamento das artérias das pernas. Mas nem toda dor na panturrilha é de circulação: problemas na coluna, nos músculos, nas articulações e nas veias também podem causar desconforto ao andar. A forma como a dor começa, onde ela aparece e o que faz ela melhorar ajudam muito a separar uma causa da outra.
O que é claudicação intermitente
A palavra “claudicação” vem do latim e significa mancar. Na claudicação intermitente, o músculo da perna recebe menos sangue do que precisa durante o esforço. Em repouso, o fluxo ainda é suficiente. Quando a pessoa caminha, o músculo passa a exigir mais oxigênio, e as artérias estreitadas não conseguem entregar. O resultado é dor, cãibra, aperto ou cansaço intenso.
As características mais comuns são:
- a dor aparece sempre depois de uma distância parecida (por exemplo, “dois quarteirões”);
- piora em subidas ou quando se anda mais rápido;
- melhora ao parar, mesmo em pé, em geral em poucos minutos;
- volta quando a pessoa retoma a caminhada.
A panturrilha é o local mais frequente, mas a dor também pode surgir na coxa ou nas nádegas, dependendo de qual artéria está comprometida.
Por que as artérias das pernas se estreitam
A principal causa é a aterosclerose: o acúmulo de placas de gordura, cálcio e inflamação na parede das artérias. É o mesmo processo que pode levar ao infarto e ao AVC. Por isso, quem tem claudicação costuma ter também maior risco cardiovascular, e a avaliação não se limita às pernas.
Os fatores de risco mais importantes são:
- tabagismo (atual ou passado);
- diabetes;
- pressão alta;
- colesterol elevado;
- idade mais avançada;
- doença renal crônica;
- histórico de doença do coração ou das carótidas.
Você pode ler mais sobre esse processo em entupimento das artérias das pernas.
Outras causas de dor na panturrilha ao caminhar
Coluna (estenose do canal lombar)
O estreitamento do canal da coluna na região lombar pode comprimir nervos e causar dor, formigamento ou fraqueza nas pernas ao caminhar, chamada às vezes de “claudicação neurogênica”. A diferença é que essa dor costuma melhorar ao sentar ou ao inclinar o corpo para frente (como ao apoiar-se num carrinho de supermercado), e não apenas ao ficar parado em pé. Também pode aparecer só de ficar em pé por muito tempo, sem caminhar.
Músculos e articulações
Distensões, cãibras, sobrecarga após exercício e problemas no joelho ou no tornozelo causam dor que em geral tem relação com um movimento específico, um treino recente ou dor à palpação do músculo. Não segue o padrão “sempre na mesma distância” da claudicação arterial. Um cisto atrás do joelho (cisto de Baker) também pode causar dor e inchaço na panturrilha.
Veias
A insuficiência venosa, que causa varizes e sensação de perna pesada e cansada, costuma dar desconforto que piora ao longo do dia e ao ficar muito tempo parado em pé, e que melhora ao elevar as pernas. Mais raramente, depois de uma trombose antiga, pode haver dor “em aperto” ao caminhar, que alivia com as pernas para cima.
Trombose
Uma trombose venosa profunda pode causar dor na panturrilha, mas geralmente acompanhada de inchaço de uma perna só, calor e vermelhidão, e a dor está presente também em repouso. Isso é uma situação que exige avaliação no mesmo dia. Veja os sintomas de trombose na perna.
Como é feita a avaliação
Na consulta com o cirurgião vascular, a conversa sobre a dor é a parte mais importante: quando começou, a distância que a pessoa consegue andar, o que melhora, doenças e remédios em uso. No exame físico, o médico palpa os pulsos nas pernas e nos pés, observa a cor, a temperatura, os pelos e a pele, e procura feridas.
Os exames mais usados são:
- Índice tornozelo-braquial (ITB): compara a pressão arterial medida no tornozelo com a do braço. É simples, não dói e ajuda a confirmar a doença arterial. Pelas diretrizes, um valor igual ou menor que 0,90 indica doença arterial periférica.
- Ultrassom com Doppler (eco-Doppler) arterial: mostra onde estão os estreitamentos e como o sangue está passando. Sempre que necessário, é feito durante a própria consulta.
- Angiotomografia ou angiorressonância: podem ser pedidas quando se planeja algum procedimento.
Se você já tiver exames anteriores, vale levá-los. Não é preciso encaminhamento para consultar o cirurgião vascular.
Como é o tratamento
O tratamento da claudicação tem dois objetivos: melhorar a capacidade de caminhar e reduzir o risco de infarto, AVC e de piora da circulação na perna.
Em muitos casos, a base é clínica:
- parar de fumar, que é a medida isolada mais importante;
- controlar pressão, diabetes e colesterol;
- usar medicamentos que protegem as artérias, conforme indicação médica individual;
- caminhada orientada: andar até a dor aparecer, parar, e retomar quando ela passar, várias vezes por semana. Programas de exercício supervisionado são recomendados pelas diretrizes como primeiro passo e podem aumentar bastante a distância percorrida;
- cuidar dos pés, principalmente em quem tem diabetes.
Quando a dor limita muito a vida da pessoa apesar dessas medidas, ou quando a circulação está mais comprometida, pode ser indicado um procedimento para reabrir a artéria. A angioplastia dos membros inferiores, feita por dentro do vaso com cateter e balão, com ou sem stent, e a cirurgia de ponte (bypass) são as opções. A escolha depende do local e da extensão do estreitamento, da saúde geral e dos objetivos de cada paciente.
Sinais de alerta: quando ir ao pronto-socorro
Procure um pronto-socorro imediatamente, ou ligue para o SAMU (192), se houver:
- perna ou pé que ficam de repente frios, pálidos ou arroxeados, com dor intensa;
- dormência ou perda de força súbita na perna;
- inchaço de uma perna só, com dor, calor ou vermelhidão;
- falta de ar ou dor no peito junto com dor na perna.
A obstrução súbita de uma artéria (isquemia aguda) e a trombose venosa são situações em que o tempo faz diferença.
Quando procurar um cirurgião vascular
Vale marcar uma avaliação se você:
- sente dor na panturrilha, coxa ou nádega que aparece ao caminhar e melhora ao parar;
- percebe que a distância que consegue andar está diminuindo;
- tem dor no pé ou nos dedos em repouso, principalmente à noite, que melhora ao deixar a perna pendurada para fora da cama;
- tem feridas nos pés ou nas pernas que demoram a cicatrizar (veja o tratamento de feridas);
- fuma ou já fumou, tem diabetes, pressão alta ou colesterol alto e nota mudanças na cor ou na temperatura dos pés.
Dor em repouso e feridas que não fecham indicam uma circulação mais comprometida e merecem avaliação sem demora. Quanto antes a causa é identificada, mais opções de tratamento costumam existir.
Referências
- Gornik HL, et al. 2024 ACC/AHA/AACVPR/APMA/ABC/SCAI/SVM/SVN/SVS/SIR/VESS Guideline for the Management of Lower Extremity Peripheral Artery Disease. Circulation. 2024.
- Nordanstig J, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2024 Clinical Practice Guidelines on the Management of Asymptomatic Lower Limb Peripheral Arterial Disease and Intermittent Claudication. European Journal of Vascular and Endovascular Surgery. 2024.
- Mazzolai L, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of peripheral arterial and aortic diseases. European Heart Journal. 2024.
Perguntas frequentes
Dor na panturrilha ao caminhar é sempre problema de circulação?
Não. Pode ser circulação arterial, mas também coluna, músculos, articulações ou veias. O padrão da dor e o exame físico ajudam a diferenciar.
Que exame mostra se a dor é da circulação?
O primeiro passo costuma ser o índice tornozelo-braquial, que compara a pressão no tornozelo e no braço. O ultrassom com Doppler das artérias complementa a avaliação.
Caminhar faz mal para quem tem claudicação?
Em geral, não. A caminhada orientada, respeitando pausas, é uma das bases do tratamento e pode aumentar a distância que a pessoa consegue andar.
Quando a dor na perna é urgência?
Quando a perna fica de repente fria, pálida, muito dolorida, dormente ou fraca, ou quando há inchaço e dor em uma perna só. Nesses casos, procure o pronto-socorro imediatamente.
Conteúdo educativo, que não substitui a consulta médica. A indicação de exames e tratamentos depende de avaliação individual.