Nem toda pessoa com diabetes precisa de acompanhamento de rotina com o cirurgião vascular, mas muitas se beneficiam de uma avaliação da circulação, principalmente quem tem feridas nos pés, dor nas pernas ao caminhar, pés frios, pulsos fracos ou está há muitos anos com diabetes. O diabetes pode afetar os nervos e as artérias das pernas ao mesmo tempo. Essa combinação é o que torna pequenas feridas perigosas e aumenta o risco de amputação. Identificar cedo a má circulação e cuidar bem dos pés estão entre as medidas mais eficazes de prevenção.

Como o diabetes afeta os pés

O chamado “pé diabético” envolve principalmente dois problemas, que muitas vezes aparecem juntos.

Neuropatia: quando o pé perde a sensibilidade

O excesso de açúcar no sangue ao longo dos anos pode lesar os nervos. A pessoa sente formigamento, queimação ou, com o tempo, deixa de sentir dor, calor e pressão nos pés. Assim, um sapato apertado, uma pedrinha ou uma queimadura com água quente podem causar feridas sem que ela perceba.

Doença arterial periférica: quando o sangue não chega bem

O diabetes acelera a aterosclerose, o acúmulo de placas nas artérias. Nas pessoas com diabetes, as artérias abaixo do joelho costumam ser as mais atingidas, e as placas podem ter muito cálcio. Com menos sangue chegando, os tecidos ficam frágeis e as feridas cicatrizam com dificuldade. Veja mais sobre o entupimento das artérias das pernas.

Um detalhe importante: por causa da neuropatia, muitos diabéticos com má circulação não sentem a dor típica ao caminhar. O problema pode avançar em silêncio até aparecer uma ferida.

Por que a avaliação vascular ajuda a prevenir amputação

Quando uma ferida surge em um pé com boa circulação, o tratamento costuma ser mais simples. Quando a circulação está comprometida, a ferida tem mais chance de não fechar, infeccionar e se aprofundar. Nesses casos, melhorar a chegada de sangue pode ser decisivo para a cicatrização.

A diretriz internacional sobre doença arterial em pessoas com diabetes e ferida no pé (IWGDF, ESVS e SVS, 2023) recomenda que toda pessoa com diabetes e úlcera no pé tenha a circulação avaliada, e que os casos com má circulação sejam discutidos com uma equipe vascular.

Como é a avaliação da circulação

Na consulta, o cirurgião vascular:

  • pergunta sobre o tempo de diabetes, controle da glicose, tabagismo, pressão, colesterol e feridas anteriores;
  • examina a pele, as unhas, a temperatura e a cor dos pés;
  • palpa os pulsos das pernas e dos pés;
  • pode medir o índice tornozelo-braquial (ITB), que compara a pressão no tornozelo e no braço;
  • pode realizar o ultrassom com Doppler (eco-Doppler) das artérias, que no consultório, quando necessário, é feito durante a própria consulta.

Nas pessoas com diabetes, as artérias calcificadas podem ficar endurecidas e dar um ITB falsamente normal. Por isso, às vezes é útil medir a pressão nos dedos ou fazer outros exames.

Tratamento quando há má circulação

O tratamento é individual, mas costuma incluir:

  • controle rigoroso dos fatores de risco: glicose, pressão e colesterol, além de parar de fumar;
  • remédios que protegem as artérias, conforme prescrição médica;
  • caminhada orientada, quando não há ferida que impeça;
  • procedimentos para reabrir as artérias, como a angioplastia dos membros inferiores ou a cirurgia de ponte (bypass), em casos com ferida, dor em repouso ou circulação muito comprometida;
  • cuidados especializados com a ferida, descritos na página de tratamento de feridas.

O cuidado do pé diabético funciona melhor com uma equipe: endocrinologista ou clínico, cirurgião vascular, profissionais de enfermagem especializados em feridas, podólogos e ortopedistas, entre outros.

Cuidados diários com os pés

Estes cuidados simples fazem diferença:

  • olhe os pés todos os dias, inclusive a sola e entre os dedos (use um espelho ou peça ajuda);
  • lave com água morna, nunca quente, e teste a temperatura com a mão ou o cotovelo;
  • seque bem entre os dedos;
  • hidrate a pele, mas não passe creme entre os dedos;
  • corte as unhas retas, sem aprofundar os cantos;
  • não corte calos nem use calicidas; procure um profissional;
  • não ande descalço, nem dentro de casa;
  • use sapatos confortáveis, fechados e sem costuras internas; confira se não há nada dentro antes de calçar;
  • prefira meias sem elástico apertado e sem costuras grossas;
  • evite bolsas de água quente e aquecedores perto dos pés.

Além disso, toda pessoa com diabetes deve ter os pés examinados por um profissional de saúde pelo menos uma vez por ano, e com mais frequência se já teve feridas ou tem perda de sensibilidade ou má circulação.

Sinais de alerta

Procure atendimento no mesmo dia ou o pronto-socorro se notar: ferida no pé com vermelhidão que se espalha, calor, inchaço, pus ou mau cheiro; febre ou glicose descontrolada sem motivo aparente; área preta ou arroxeada em dedo ou pé; ou dor intensa no pé em repouso, principalmente à noite. No pé diabético, a demora pode aumentar o risco de amputação. Se o pé ou a perna ficarem de repente frios, pálidos, dormentes e doloridos, vá imediatamente ao pronto-socorro ou ligue para o SAMU (192): pode ser uma obstrução aguda da artéria.

Quando procurar um cirurgião vascular

Vale marcar uma avaliação se você tem diabetes e:

  • tem qualquer ferida nos pés ou nas pernas, principalmente se não melhora (veja ferida na perna que não cicatriza);
  • sente dor na panturrilha, coxa ou nádega ao caminhar (leia sobre dor na panturrilha ao caminhar);
  • tem pés frios, pálidos ou arroxeados, pele fina e brilhante ou perda de pelos nas pernas;
  • já teve feridas ou amputação anterior;
  • fuma, tem pressão alta ou colesterol alto, ou está há muitos anos com diabetes.

Não é preciso encaminhamento para consultar o cirurgião vascular. Leve a lista de medicamentos e os exames mais recentes, incluindo os de glicose.

Referências

  • Fitridge R, et al. The intersocietal IWGDF, ESVS, SVS guidelines on peripheral artery disease in people with diabetes and a foot ulcer. Journal of Vascular Surgery. 2023.
  • Schaper NC, et al. Practical guidelines on the prevention and management of diabetes-related foot disease (IWGDF 2023 update). Diabetes/Metabolism Research and Reviews. 2024.
  • Bus SA, et al. Guidelines on the prevention of foot ulcers in persons with diabetes (IWGDF 2023 update). Diabetes/Metabolism Research and Reviews. 2024.
  • Gornik HL, et al. 2024 ACC/AHA/AACVPR/APMA/ABC/SCAI/SVM/SVN/SVS/SIR/VESS Guideline for the Management of Lower Extremity Peripheral Artery Disease. Circulation. 2024.

Perguntas frequentes

Todo diabético precisa consultar um cirurgião vascular?

Não necessariamente. Mas toda pessoa com diabetes deve ter os pés examinados regularmente, e quem tem sinais de má circulação, feridas ou vários fatores de risco se beneficia de uma avaliação vascular.

Por que o diabético tem mais risco de amputação?

Porque o diabetes pode reduzir a sensibilidade dos pés e prejudicar a circulação. Uma ferida pequena pode passar despercebida, infeccionar e cicatrizar mal quando o sangue não chega bem.

Que exame avalia a circulação das pernas no diabético?

O médico começa palpando os pulsos e pode medir o índice tornozelo-braquial e fazer ultrassom com Doppler. Em algumas pessoas com diabetes, a pressão medida nos dedos dos pés complementa a avaliação.

Posso cortar calos e unhas encravadas em casa?

Não é recomendado. Calos e unhas devem ser cuidados por profissional capacitado, porque pequenos cortes podem virar feridas difíceis de tratar.

Conteúdo educativo, que não substitui a consulta médica. A indicação de exames e tratamentos depende de avaliação individual.