Sim, alguns anticoncepcionais aumentam o risco de trombose, mas esse aumento é pequeno para a maioria das mulheres saudáveis. O efeito está ligado principalmente aos métodos que contêm estrogênio, como a pílula combinada, o adesivo, o anel vaginal e a injeção mensal. Os métodos que usam só progestagênio, como a minipílula, o implante e o DIU hormonal, em geral não aumentam o risco de forma importante. O que mais pesa é a soma de fatores: tabagismo, obesidade, trombofilia, cirurgias, imobilização e o período depois do parto. Se você tem dúvidas sobre o seu método, não pare por conta própria: converse com seu médico, que pode avaliar o seu risco individual.
O que é trombose e por que o hormônio interfere
A trombose venosa profunda é a formação de um coágulo dentro de uma veia profunda, quase sempre nas pernas. O maior perigo é um pedaço desse coágulo se soltar e ir para os pulmões, causando a embolia pulmonar, que pode ser grave. Se quiser saber como reconhecer o problema, veja o artigo sobre sintomas de trombose na perna.
O estrogênio usado nos anticoncepcionais age no fígado e altera o equilíbrio entre as substâncias que fazem o sangue coagular e as que impedem a coagulação. O sangue fica um pouco mais propenso a formar coágulos. Na maioria das mulheres, isso não tem consequência. Mas, quando se somam outros fatores de risco, a chance de trombose pode subir.
Qual é o tamanho do risco
Para dar uma ideia, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) estimou, em 2013, o número de casos de trombose por ano a cada 10.000 mulheres:
| Situação | Casos por ano a cada 10.000 mulheres |
|---|---|
| Sem anticoncepcional hormonal e sem gravidez | cerca de 2 |
| Pílula combinada com levonorgestrel, noretisterona ou norgestimato | 5 a 7 |
| Adesivo ou anel vaginal | 6 a 12 |
| Pílula combinada com gestodeno, desogestrel ou drospirenona | 9 a 12 |
Ou seja: o risco relativo aumenta, mas o risco absoluto continua baixo. A própria gravidez e, principalmente, as semanas após o parto trazem um risco de trombose maior do que o da pílula. Por isso, para a maioria das mulheres, os benefícios da contracepção continuam superando os riscos.
Alguns detalhes ajudam a entender quando o risco é maior:
- ele é mais alto no primeiro ano de uso;
- também sobe quando a mulher volta a usar o método depois de uma pausa de algumas semanas;
- o tipo de progestagênio associado ao estrogênio faz diferença, como mostra a tabela.
Métodos com estrogênio e métodos só de progestagênio
Muita gente não sabe se o seu método tem estrogênio. Um resumo geral:
Contêm estrogênio (combinados):
- pílula combinada (a maioria das pílulas de cartela);
- adesivo anticoncepcional;
- anel vaginal;
- injeção mensal.
Só progestagênio ou sem hormônio:
- minipílula (pílula só de progestagênio);
- implante subdérmico;
- DIU hormonal;
- injeção trimestral (alguns estudos sugerem algum aumento de risco com esse método; a avaliação é individual);
- DIU de cobre, que não tem hormônio.
Os métodos só de progestagênio e o DIU de cobre costumam ser alternativas para mulheres com risco aumentado de trombose. A escolha, porém, envolve outros aspectos, como eficácia, sangramento, efeitos colaterais e preferências, e deve ser feita com o ginecologista.
Fatores que aumentam o risco
O anticoncepcional raramente age sozinho. Os fatores que mais somam risco são:
- Tabagismo, especialmente em mulheres acima de 35 anos. Nesse grupo, os métodos com estrogênio em geral não são recomendados.
- Obesidade, que por si só já aumenta a chance de trombose.
- Trombofilia, que é uma tendência herdada ou adquirida de formar coágulos (por exemplo, fator V de Leiden ou síndrome antifosfolípide).
- Trombose anterior, na própria mulher.
- Histórico familiar de trombose em parentes de primeiro grau (pais, irmãos), principalmente em idade jovem.
- Pós-parto: nas primeiras semanas após o parto, o risco já é alto e os métodos com estrogênio costumam ser evitados nesse período.
- Cirurgias, fraturas e imobilização prolongada, como gesso ou repouso na cama.
- Viagens longas, sobretudo quando outros fatores estão presentes (veja viagem de avião e trombose).
- Idade: o risco de trombose aumenta com os anos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) mantém critérios de elegibilidade que ajudam o médico a decidir quais métodos são seguros em cada situação. Mulheres com trombose anterior ou trombofilia conhecida, por exemplo, em geral não devem usar métodos com estrogênio.
Preciso investigar trombofilia antes de usar pílula?
Na maioria dos casos, não. Os exames de trombofilia não são indicados de rotina para todas as mulheres que vão começar um anticoncepcional. Eles podem ser considerados em situações específicas, como quando há parentes próximos com trombose ou com trombofilia já diagnosticada. Nesses casos, o resultado pode ajudar a escolher o método.
Também vale lembrar que um exame normal não elimina todo o risco, e que um exame alterado nem sempre muda a conduta. Por isso, a decisão de investigar deve ser tomada com o médico, depois de uma boa conversa sobre o histórico pessoal e familiar.
Já tive trombose. E agora?
Quem teve trombose, com ou sem anticoncepcional, em geral passa a evitar métodos com estrogênio. Durante o tratamento, a mulher precisa de proteção eficaz contra a gravidez, porque alguns anticoagulantes podem prejudicar o bebê. A troca de método deve ser planejada em conjunto pelo ginecologista e pelo médico que acompanha a trombose, para que não haja período sem proteção. Saiba mais em quanto tempo dura o tratamento de trombose.
Não pare o anticoncepcional por conta própria
Interromper o método de repente pode levar a uma gravidez não planejada, e a gravidez também aumenta o risco de trombose. Se você está preocupada, o caminho mais seguro é marcar uma consulta e levar:
- o nome do anticoncepcional que usa;
- informações sobre tromboses na família;
- exames anteriores, se tiver.
Sinais de alerta: procure o pronto-socorro imediatamente se tiver inchaço de uma perna só, com dor, calor ou vermelhidão; falta de ar repentina; dor no peito que piora ao respirar; tosse com sangue; ou desmaio. Esses sinais podem indicar trombose ou embolia pulmonar e precisam de atendimento urgente. Dor de cabeça intensa e diferente do habitual, perda de visão, fala enrolada ou fraqueza de um lado do corpo podem indicar AVC e também exigem atendimento imediato: ligue para o SAMU (192).
Quando procurar um cirurgião vascular
Vale conversar com um cirurgião vascular se você:
- já teve trombose e quer entender os riscos daqui para a frente;
- tem parentes próximos com trombose ou trombofilia e vai começar ou trocar de método;
- tem varizes importantes, inchaço ou outros sinais de doença venosa;
- vai passar por uma cirurgia e usa anticoncepcional com estrogênio;
- tem dúvidas sobre sintomas nas pernas.
Na consulta, o cirurgião vascular revisa o histórico, examina as pernas e, quando necessário, faz o ultrassom com Doppler (eco-Doppler) na própria consulta. Não é preciso encaminhamento. A escolha final do anticoncepcional costuma ser feita em conjunto com o ginecologista.
Referências
- European Medicines Agency (EMA). PRAC confirms that benefits of all combined hormonal contraceptives (CHCs) continue to outweigh risks. 2013.
- World Health Organization. Medical eligibility criteria for contraceptive use, 6th edition. 2025.
- Middeldorp S, et al. American Society of Hematology 2023 guidelines for management of venous thromboembolism: thrombophilia testing. Blood Advances. 2023.
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Combined hormonal contraception and the risk of venous thromboembolism: a guideline. Fertility and Sterility. 2017.
Perguntas frequentes
Todo anticoncepcional aumenta o risco de trombose?
Não. O aumento está ligado principalmente aos métodos que contêm estrogênio (pílula combinada, adesivo, anel vaginal e injeção mensal). Métodos só de progestagênio e o DIU de cobre, em geral, não aumentam o risco de forma importante.
Preciso fazer exame de trombofilia antes de começar a pílula?
Não é um exame de rotina para todas as mulheres. Ele pode ser considerado em situações específicas, como parentes próximos com trombose ou trombofilia conhecida, após avaliação médica.
Tive trombose usando pílula. Posso continuar?
Em geral, métodos com estrogênio passam a ser evitados depois de uma trombose, mas a troca deve ser planejada com o médico, para não ficar sem proteção contra a gravidez.
Devo parar o anticoncepcional se estou preocupada?
Não pare por conta própria. Converse com seu ginecologista ou com o cirurgião vascular, que avaliam seu risco e as alternativas mais adequadas.
Conteúdo educativo, que não substitui a consulta médica. A indicação de exames e tratamentos depende de avaliação individual.