Sim, uma viagem de avião longa pode aumentar o risco de trombose venosa profunda, mas, para a maioria das pessoas saudáveis, esse risco continua baixo. Ele cresce em viagens de quatro horas ou mais e, principalmente, em quem já tem outros fatores de risco, como trombose anterior, cirurgia recente, gravidez, uso de hormônios com estrogênio, câncer ou obesidade. Medidas simples, como se levantar, mexer os pés e se hidratar, ajudam na prevenção. Meias de compressão e remédios anticoagulantes podem ser indicados em casos selecionados, sempre com orientação médica.

Por que ficar sentado muito tempo favorece a trombose

O sangue das pernas volta ao coração com a ajuda da bomba da panturrilha: cada vez que caminhamos, o músculo da batata da perna se contrai e empurra o sangue para cima. Quando ficamos horas sentados, com os joelhos dobrados e sem nos mexer, essa bomba quase não funciona. O sangue anda mais devagar nas veias das pernas, e isso facilita a formação de coágulos.

No avião, outros fatores podem somar: pouco espaço para as pernas, desidratação pelo ar seco da cabine e, em algumas pessoas, o consumo de álcool ou de remédios para dormir, que fazem a pessoa ficar ainda mais tempo imóvel.

Esse efeito não é exclusivo do avião. Viagens longas de carro, ônibus ou trem também aumentam o risco, pelo mesmo motivo.

Qual é o tamanho do risco

Um grande estudo coordenado pela Organização Mundial da Saúde (projeto WRIGHT) mostrou que o risco de trombose aproximadamente dobra depois de viagens de quatro horas ou mais, e que quanto mais longa a viagem, maior o risco. Mesmo assim, o risco absoluto é pequeno: em pessoas sem outros fatores de risco, estima-se em torno de um caso para cada 6.000 viagens longas.

O estudo também observou que o risco continua um pouco mais alto por cerca de quatro semanas depois do voo, e que várias viagens longas em pouco tempo aumentam o risco.

Quem precisa ter mais cuidado

O risco é maior quando a viagem longa se soma a uma ou mais destas situações:

  • trombose ou embolia pulmonar anterior;
  • cirurgia, fratura ou internação recente, especialmente nas últimas semanas;
  • gravidez e as semanas após o parto;
  • uso de anticoncepcional ou reposição hormonal com estrogênio (veja anticoncepcional e trombose);
  • câncer em atividade ou em tratamento;
  • trombofilia (alteração da coagulação) conhecida ou casos de trombose na família;
  • obesidade;
  • mobilidade reduzida, como perna engessada ou dificuldade para andar;
  • idade mais avançada;
  • varizes importantes.

Se você se encaixa em algum desses grupos e vai fazer uma viagem longa, vale conversar com o médico antes de embarcar.

Como prevenir: medidas práticas para todos

Estas medidas são úteis para qualquer pessoa em viagens longas:

  • Levante-se e caminhe pelo corredor sempre que for seguro, por exemplo a cada uma ou duas horas, respeitando as orientações da tripulação.
  • Movimente os pés e as pernas sentado: faça o movimento de “pedal”, levantando e abaixando as pontas dos pés e os calcanhares, e gire os tornozelos várias vezes por hora.
  • Beba água ao longo da viagem.
  • Evite excesso de bebida alcoólica e remédios para dormir, que deixam a pessoa imóvel por muito tempo.
  • Prefira roupas confortáveis, que não apertem a cintura nem as pernas.
  • Não guarde bagagem embaixo do banco da frente se isso limitar o espaço para mexer as pernas.
  • Se puder escolher, um assento no corredor facilita levantar-se.
  • Em viagens de carro, faça paradas para caminhar um pouco.

Meias de compressão: para quem?

As meias de compressão ajudam o sangue a voltar das pernas. Uma revisão Cochrane, que reuniu estudos com passageiros de voos longos, concluiu que as meias provavelmente reduzem a ocorrência de trombose sem sintomas e também diminuem o inchaço nas pernas.

Na prática, as diretrizes costumam sugerir as meias principalmente para quem tem risco aumentado. Para quem não tem fatores de risco, movimentar-se costuma ser suficiente. Alguns cuidados:

  • a meia precisa ter tamanho e compressão adequados; uma meia mal ajustada pode garrotear a perna e atrapalhar a circulação;
  • em geral, usa-se a meia até o joelho, vestida antes do embarque;
  • pessoas com doença arterial nas pernas, alguns problemas de pele ou neuropatia podem não poder usar compressão.

Por isso, a indicação e a escolha da meia devem ser feitas após avaliação. Quem tem varizes pode aproveitar a consulta para discutir também o tratamento de varizes.

E os remédios para “afinar o sangue”?

Em pessoas com risco muito aumentado (por exemplo, trombose anterior, cirurgia recente ou câncer em atividade), o médico pode, em casos selecionados, indicar um anticoagulante antes de uma viagem longa. Essa é uma decisão individual, que leva em conta o risco de trombose e o risco de sangramento.

Não tome anticoagulantes nem outros remédios por conta própria para prevenir trombose na viagem. Quem já usa anticoagulante deve manter o tratamento conforme orientado, levar a medicação na bagagem de mão e respeitar os horários, mesmo com mudança de fuso.

Sintomas que exigem atenção durante e depois da viagem

Lembre que o risco pode durar algumas semanas após o voo. Fique atento a:

  • inchaço de uma perna só, com dor, calor ou vermelhidão;
  • dor na panturrilha que não passa.

Nesses casos, procure avaliação no mesmo dia. Veja mais sobre os sintomas de trombose na perna.

Sinais de alerta: falta de ar repentina, dor no peito que piora ao respirar, tosse com sangue, coração acelerado ou desmaio podem indicar embolia pulmonar. Procure o pronto-socorro imediatamente ou ligue para o SAMU (192). Se estiver a bordo, avise a tripulação.

Quando procurar um cirurgião vascular

Vale conversar com o cirurgião vascular antes de uma viagem longa se você:

  • já teve trombose ou embolia pulmonar;
  • operou ou se machucou recentemente;
  • está grávida, teve bebê há pouco tempo ou usa hormônios com estrogênio e tem outros fatores de risco;
  • tem varizes importantes ou já teve inflamação em varizes;
  • tem dúvida se deve usar meia de compressão e qual escolher.

Na consulta, o médico avalia seu risco individual e orienta as medidas mais adequadas para a viagem.

Referências

  • World Health Organization. WHO Research Into Global Hazards of Travel (WRIGHT) project: final report of phase I. 2007.
  • Clarke MJ, et al. Compression stockings for preventing deep vein thrombosis in airline passengers. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2021.
  • Schünemann HJ, et al. American Society of Hematology 2018 guidelines for management of venous thromboembolism: prophylaxis for hospitalized and nonhospitalized medical patients. Blood Advances. 2018.
  • Kahn SR, et al. Prevention of VTE in nonsurgical patients: Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Chest. 2012.

Perguntas frequentes

A partir de quantas horas de voo o risco de trombose aumenta?

Estudos da Organização Mundial da Saúde mostram que o risco aproximadamente dobra em viagens de quatro horas ou mais, e é maior quanto mais longa a viagem. Mesmo assim, para a maioria das pessoas, o risco continua baixo.

Toda pessoa deve usar meia de compressão no avião?

Não necessariamente. Para quem não tem fatores de risco, movimentar-se costuma ser suficiente. Em quem tem risco aumentado, a meia pode ser indicada, com tamanho e compressão definidos por um médico.

Devo tomar algum remédio para afinar o sangue antes de viajar?

Não tome por conta própria. O uso de anticoagulante antes de viagens é reservado a casos selecionados de alto risco e deve ser decidido com o médico.

Viagens longas de carro ou ônibus também aumentam o risco?

Sim. O que aumenta o risco é ficar muitas horas sentado sem se mexer, seja no avião, no carro, no ônibus ou no trem.

Conteúdo educativo, que não substitui a consulta médica. A indicação de exames e tratamentos depende de avaliação individual.