Sim, uma mancha escura na perna pode ser sinal de problema de circulação, principalmente quando é acastanhada ou arroxeada, fica na parte de baixo da perna, perto dos tornozelos, e aparece em quem tem varizes, inchaço ou sensação de peso. Essa mancha, chamada dermatite ocre, é causada pela insuficiência venosa crônica e mostra que a pressão nas veias está elevada há algum tempo. Ela não é perigosa por si só, mas é um aviso: sem cuidado, a pele pode ficar inflamada, endurecida e, em alguns casos, abrir uma ferida. Por isso, vale procurar avaliação.
Por que a circulação escurece a pele
Nas veias das pernas existem válvulas que impedem o sangue de voltar para baixo. Quando elas não funcionam bem, o sangue se acumula e a pressão dentro das veias aumenta, sobretudo em quem fica muito tempo em pé. Essa condição se chama insuficiência venosa crônica (veja perna pesada e cansada).
Com a pressão alta, pequenas quantidades de sangue escapam dos vasos para os tecidos. As hemácias (glóbulos vermelhos) se desfazem e deixam para trás um pigmento que contém ferro, chamado hemossiderina. É esse pigmento, depositado na pele, que produz a cor castanha ou cor de ferrugem. Por isso a mancha costuma começar em volta do tornozelo, a região que sofre mais pressão, e pode subir pela canela.
As alterações de pele da insuficiência venosa
Os cirurgiões vasculares descrevem essas mudanças usando a classificação CEAP. As classes C4 a C6 correspondem às alterações de pele e às feridas. Veja as principais, em linguagem simples:
Dermatite ocre (hiperpigmentação)
Manchas acastanhadas, geralmente dos dois lados, na parte baixa das pernas. Costumam não doer e vão escurecendo aos poucos. Muitas vezes vêm acompanhadas de varizes e inchaço no fim do dia.
Eczema de estase (dermatite de estase)
A pele fica avermelhada ou escurecida, com coceira, descamação e às vezes pequenas bolhas ou crostas. Coçar machuca a pele e pode abrir portas para infecção. Algumas pessoas desenvolvem alergia a cremes e pomadas passados na região, o que piora o quadro.
Lipodermatoesclerose
É um endurecimento da pele e da gordura logo abaixo dela, na parte de baixo da perna. A região fica firme, escura e às vezes dolorida. Em casos antigos, a perna pode ganhar o aspecto de uma “garrafa de champanhe invertida”: fina no tornozelo e mais grossa acima. Na fase inicial, pode ficar vermelha, quente e dolorosa, e ser confundida com erisipela (uma infecção de pele).
Atrofia branca
Pequenas áreas de pele esbranquiçada, lisa e fina, às vezes com pontinhos vermelhos ao redor. É uma pele mais frágil, que pode ferir com facilidade.
Úlcera venosa
É a fase mais avançada: uma ferida que aparece geralmente na parte interna do tornozelo, às vezes após um pequeno trauma, e que demora a cicatrizar. Costuma ter bordas irregulares, pode liberar secreção e estar cercada por pele escura e endurecida. Leia mais em ferida na perna que não cicatriza.
Outras causas de mancha escura na perna
Nem toda mancha é causada pelas veias. Outras possibilidades incluem:
- manchas após inflamação ou trauma: depois de picadas de inseto, arranhões, depilação ou machucados;
- dermopatia diabética: pequenas manchas acastanhadas e arredondadas na canela de pessoas com diabetes;
- púrpuras e doenças de pele pigmentadas, que exigem avaliação dermatológica;
- efeito de alguns medicamentos;
- pintas e lesões de pele: uma pinta nova, que cresce, muda de cor ou de formato ou sangra deve ser avaliada por dermatologista, para afastar câncer de pele.
A localização, o aspecto da mancha e a presença de varizes e inchaço ajudam o médico a separar uma causa da outra.
Como é feita a avaliação
Na consulta com o cirurgião vascular, o médico conversa sobre há quanto tempo as manchas existem, se há coceira, dor, inchaço, varizes, tromboses anteriores e doenças como diabetes. No exame físico, observa a pele, procura endurecimento e feridas, e palpa os pulsos dos pés.
O ultrassom com Doppler (eco-Doppler) mostra se há refluxo nas veias superficiais ou profundas, sinais de trombose antiga e como está a circulação. Sempre que necessário, o exame é feito durante a própria consulta. Quando os pulsos estão fracos, a avaliação das artérias também é importante, porque influencia o tratamento. Se você já tiver exames, pode levá-los.
O que pode ser feito
O objetivo é reduzir a pressão nas veias, proteger a pele e evitar que surjam feridas. Em termos gerais:
- compressão: meias elásticas ou bandagens, indicadas após avaliação, ajudam a controlar o inchaço e a pressão venosa;
- elevar as pernas várias vezes ao dia e caminhar, para ativar a bomba da panturrilha;
- cuidar da pele: hidratar diariamente com produtos simples, evitar coçar e evitar pomadas e cremes sem orientação, pela chance de alergia;
- tratar o eczema quando presente, com medicamentos tópicos indicados pelo médico, por curto período;
- tratar as veias doentes: quando o eco-Doppler mostra refluxo, pode ser indicado fechar ou retirar as veias responsáveis, com técnicas como escleroterapia com espuma, laser endovenoso ou cirurgia. Em pessoas com úlcera venosa, um estudo clínico importante (EVRA) mostrou que tratar o refluxo cedo, junto com a compressão, ajudou as feridas a cicatrizarem mais rápido. Veja mais em tratamento de varizes.
Quando já existe ferida, o cuidado inclui curativos adequados e acompanhamento regular. Saiba mais sobre o tratamento de feridas.
Uma expectativa realista: a mancha nem sempre desaparece. O tratamento pode evitar que ela aumente e, em algumas pessoas, ela clareia com o tempo, mas o pigmento de ferro pode permanecer na pele.
Sinais de alerta: procure atendimento no mesmo dia se a perna ficar vermelha, quente, inchada e dolorosa, com ou sem febre (pode ser infecção), ou se surgir inchaço repentino de uma perna só (pode ser trombose). Falta de ar ou dor no peito exigem pronto-socorro imediatamente.
Quando procurar um cirurgião vascular
Vale agendar uma avaliação se você:
- tem manchas escuras perto dos tornozelos, especialmente com varizes ou inchaço;
- sente coceira persistente ou nota descamação na parte baixa da perna;
- percebe a pele endurecida, brilhante ou esbranquiçada;
- tem uma ferida na perna que não fecha em poucas semanas;
- já teve trombose e notou mudanças na pele da perna.
As alterações de pele indicam uma fase mais avançada da doença venosa, e o cuidado precoce pode ajudar a evitar feridas.
Referências
- De Maeseneer MG, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs. European Journal of Vascular and Endovascular Surgery. 2022.
- Lurie F, et al. The 2020 update of the CEAP classification system and reporting standards. Journal of Vascular Surgery: Venous and Lymphatic Disorders. 2020.
- O’Donnell TF Jr, et al. Management of venous leg ulcers: clinical practice guidelines of the Society for Vascular Surgery and the American Venous Forum. Journal of Vascular Surgery. 2014.
- Gohel MS, et al. A randomized trial of early endovenous ablation in venous ulceration (EVRA). New England Journal of Medicine. 2018.
Perguntas frequentes
A mancha escura da circulação some depois do tratamento?
Nem sempre. O tratamento da causa pode impedir que a mancha aumente e, em alguns casos, ela clareia com o tempo, mas muitas vezes o pigmento permanece.
Mancha escura na perna é perigosa?
A mancha em si não é perigosa, mas indica que a pressão nas veias está alta há algum tempo. Sem cuidado, a pele pode ficar mais frágil e surgir uma ferida.
Posso passar creme clareador na mancha?
Cremes clareadores não tratam a causa e alguns podem irritar a pele já sensível. O ideal é avaliar a circulação antes de usar qualquer produto.
Toda mancha escura na perna é de circulação?
Não. Manchas também podem surgir após inflamações, picadas, traumas, no diabetes e em doenças de pele. Uma pinta nova ou que muda de aspecto deve ser avaliada por dermatologista.
Conteúdo educativo, que não substitui a consulta médica. A indicação de exames e tratamentos depende de avaliação individual.