Sim. Muitos aneurismas de aorta podem ser tratados sem um corte grande no abdome, pela técnica endovascular: uma endoprótese, que é um tubo de tecido especial sustentado por uma armação metálica, é levada por dentro das artérias a partir de pequenas incisões ou punções na virilha e posicionada dentro do aneurisma. Ela passa a conduzir o sangue e protege a parede dilatada da pressão. Mas nem todo aneurisma pode ser tratado assim, e a endoprótese exige acompanhamento com exames para a vida toda. A cirurgia aberta continua sendo uma opção importante. A escolha depende da anatomia da aorta, da saúde geral e das preferências de cada pessoa, após avaliação com o cirurgião vascular.
Quando o aneurisma precisa ser tratado
Antes de pensar em como tratar, é preciso saber se é hora de tratar. Muitos aneurismas pequenos são apenas acompanhados com ultrassom. O tratamento costuma ser indicado quando o risco de ruptura passa a ser maior do que o risco do procedimento.
De forma geral, isso acontece quando:
- o aneurisma atinge um diâmetro grande; a diretriz europeia de 2024 usa como referência 5,5 cm em homens e 5,0 cm em mulheres;
- o aneurisma cresce rápido;
- o aneurisma causa sintomas, como dor;
- há ruptura, que é uma emergência.
Se você quer entender melhor o que é o aneurisma e quem deve fazer exame, veja o artigo o que é aneurisma de aorta e quais são os sintomas.
Como funciona o tratamento endovascular
O tratamento endovascular do aneurisma de aorta abdominal é conhecido pela sigla em inglês EVAR. De forma simplificada, o procedimento segue estes passos:
- A equipe acessa as artérias da virilha, por punção com agulha ou por um pequeno corte.
- Fios e cateteres finos são guiados por dentro dos vasos até a aorta, com auxílio de raios X e contraste.
- A endoprótese, dobrada dentro de um cateter, é levada até o aneurisma e aberta no lugar certo.
- Ela se fixa na parte saudável da aorta, acima do aneurisma, e nas artérias ilíacas, abaixo.
A partir daí, o sangue passa por dentro da prótese, e o saco do aneurisma deixa de receber a pressão direta. A anestesia pode ser local com sedação, regional ou geral, conforme o caso.
Quem pode fazer
A viabilidade depende da anatomia, avaliada por angiotomografia. Alguns pontos analisados:
- o comprimento e a forma do trecho de aorta saudável logo abaixo das artérias dos rins, onde a prótese vai se apoiar;
- o grau de curvatura (angulação) da aorta;
- o calibre e a presença de placas ou curvas nas artérias ilíacas, por onde a prótese passa.
Quando a anatomia é mais complexa, existem endopróteses especiais, com ramos ou aberturas para as artérias dos rins e do intestino. Elas exigem planejamento detalhado e nem sempre estão disponíveis ou indicadas.
Como é a cirurgia aberta
Na cirurgia aberta, o acesso à aorta é feito por um corte no abdome ou na lateral do corpo. O cirurgião interrompe temporariamente o fluxo de sangue, abre o aneurisma e costura no lugar um enxerto (um tubo sintético). É uma cirurgia de grande porte, feita com anestesia geral, e a recuperação é mais longa.
Por outro lado, depois de cicatrizado, o enxerto costuma ser muito durável, e a necessidade de exames de controle frequentes é menor.
Comparação entre as técnicas
| Aspecto | Endovascular (endoprótese) | Cirurgia aberta |
|---|---|---|
| Acesso | Punções ou pequenos cortes na virilha | Corte no abdome ou na lateral |
| Anestesia | Local com sedação, regional ou geral | Geral |
| Risco nos primeiros dias | Em geral, menor | Em geral, maior |
| Internação e recuperação | Em geral, mais curtas | Em geral, mais longas |
| Resultado a longo prazo | A vantagem inicial diminui com os anos; depende de vigilância regular | Durável depois da recuperação |
| Necessidade de novo procedimento | Mais frequente | Menos frequente |
| Exames de controle | Por toda a vida | Menos frequentes |
| Depende da anatomia | Sim, bastante | Menos |
Os grandes estudos que compararam as duas técnicas mostraram que o tratamento endovascular tem menor risco no período logo após o procedimento, mas que essa vantagem inicial diminui com o passar dos anos. Em alguns estudos, a sobrevida a longo prazo ficou parecida entre as duas opções. Em outro, o estudo britânico EVAR 1, depois de cerca de oito anos a mortalidade passou a ser maior no grupo tratado com endoprótese, em parte por rupturas tardias do aneurisma. Por isso, o acompanhamento regular com exames é parte essencial do tratamento endovascular. A diretriz europeia de 2024 considera a técnica endovascular a preferida para a maioria das pessoas com anatomia adequada, sem deixar de lado a cirurgia aberta, que pode ser a melhor escolha para alguns pacientes, como os mais jovens e com boa saúde, com expectativa de vida longa.
O acompanhamento depois da endoprótese
Este é um ponto que muita gente não conhece: a endoprótese precisa ser vigiada. Com o tempo, podem acontecer:
- vazamentos (endoleaks), quando o sangue volta a entrar no saco do aneurisma por fora da prótese;
- deslocamento da prótese;
- crescimento do aneurisma, mesmo com a prótese no lugar;
- estreitamento ou obstrução de um dos ramos da prótese.
Muitas dessas situações não dão sintomas, e algumas podem ser corrigidas com um novo procedimento, em geral também endovascular. Por isso, o controle costuma incluir uma tomografia no primeiro mês e depois exames periódicos, com ultrassom ou tomografia, em intervalos definidos pelo cirurgião vascular conforme o risco de cada caso. Manter os exames em dia ajuda a identificar esses problemas antes que causem complicações.
Depois do tratamento, também continuam importantes: não fumar, controlar a pressão e o colesterol e manter o acompanhamento das outras artérias, já que é comum a pessoa ter aterosclerose em outros locais (veja entupimento das artérias das pernas).
Sinais de alerta: ligue para o SAMU (192) ou vá imediatamente ao pronto-socorro se houver dor forte e repentina na barriga, nas costas ou nos flancos, com tontura, suor frio, palidez ou desmaio, mesmo em quem já foi tratado. Também procure atendimento urgente se uma perna ficar de repente fria, pálida, dolorida ou dormente.
Quando procurar um cirurgião vascular
Vale marcar uma avaliação se você:
- recebeu o diagnóstico de aneurisma de aorta e quer entender as opções;
- tem um aneurisma em acompanhamento que cresceu;
- já fez tratamento com endoprótese e está sem exames de controle recentes;
- sente dor abdominal ou nas costas sem explicação e sabe que tem aneurisma (se a dor for forte e repentina, vá ao pronto-socorro).
Na consulta, o cirurgião vascular revisa os exames, examina os pulsos e, quando necessário, faz o ultrassom com Doppler (eco-Doppler) na própria consulta. Para planejar o tratamento, em geral é pedida uma angiotomografia. Mais informações na página de tratamento de aneurismas.
Referências
- Wanhainen A, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2024 Clinical Practice Guidelines on the Management of Abdominal Aorto-Iliac Artery Aneurysms. European Journal of Vascular and Endovascular Surgery. 2024.
- Chaikof EL, et al. The Society for Vascular Surgery practice guidelines on the care of patients with an abdominal aortic aneurysm. Journal of Vascular Surgery. 2018.
- Patel R, et al. Endovascular versus open repair of abdominal aortic aneurysm in 15-years’ follow-up of the UK endovascular aneurysm repair trial 1 (EVAR trial 1): a randomised controlled trial. The Lancet. 2016.
- Lederle FA, et al. Open versus Endovascular Repair of Abdominal Aortic Aneurysm. New England Journal of Medicine. 2019.
- Mazzolai L, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of peripheral arterial and aortic diseases. European Heart Journal. 2024.
Perguntas frequentes
Todo aneurisma pode ser tratado com endoprótese?
Não. A técnica depende da anatomia da aorta, do formato e da localização do aneurisma e das artérias por onde a prótese passa. Isso é avaliado principalmente pela angiotomografia.
A endoprótese é definitiva?
Ela fica no corpo permanentemente, mas precisa de acompanhamento com exames de imagem ao longo da vida, porque podem surgir vazamentos ou deslocamentos que às vezes exigem novo procedimento.
A cirurgia aberta ainda é feita?
Sim. Ela continua sendo uma boa opção para pessoas cuja anatomia não permite a endoprótese e, em alguns casos, para pacientes mais jovens e com boa saúde, pela durabilidade.
Quanto tempo fico internado?
Em geral, a internação após o tratamento endovascular é mais curta do que após a cirurgia aberta, mas o tempo varia conforme cada caso e a recuperação de cada pessoa.
Conteúdo educativo, que não substitui a consulta médica. A indicação de exames e tratamentos depende de avaliação individual.